A INVASÃO SOVIÉTICA NO AFEGANISTÃO

9 abr

Uma grande parte do que o mundo é hoje, é derivada direta da Guerra Fria. Muitos dos confrontos geopolíticos e econômicos que hoje vemos são resultados diretos do mundo bipolar que teve um fim abrupto no final dos anos 80 e início dos anos 90, e cujos efeitos perduram como uma grande sombra sobre a comunidade internacional. Os alinhamentos da época, a política externa das superpotências, ainda impactam a realidade e um extenso número de ações das Relações Internacionais.

Quando tomamos isoladamente o Afeganistão, tais vestígios da Guerra Fria são ainda mais claros e servem para emoldurar as constantes convulsões da região.

A visão comunista de mundo da União Soviética era conflitante com o Islã. Não havia no país um ambiente de tolerância[1]. A adoração islâmica e o conjunto de tradições muçulmanas foram suprimidos em prol do idealismo soviético.

No entanto por mais forte que o sistema e a instituição comunista fossem, ainda assim houve uma manutenção das raízes islâmicas na parcela da população muçulmana absorvida pelo avanço soviético.

Houve em um dado momento um movimento clandestino de propagação do Islã dentro da União Soviética, mas incapaz de fazer frente ao estado de estupor da população muçulmana[2].

Historicamente a invasão soviética ao Afeganistão se deu perante um clima de incerteza sobre o futuro desse país propiciado pelo golpe de estado que ameaçava a influência soviética no país.

O Afeganistão recebeu durante os anos do império soviético, relevante ajuda técnica e financeira para a melhoria da infraestrutura do país.

As agitações que levaram a União Soviética a invadir o Afeganistão começaram quando o Partido Democrático Popular do Afeganistão[3] (PDPA) chegou ao poder após o golpe de 1978. O partido comunista em sua essência passou assim que assumiu o poder, a implantar medidas de caráter marxista como a reforma agrária. Outras reformas também foram levadas a efeito, com destaque para a instauração de um Estado laico, e maior participação da mulher afegã na sociedade[4].

Essas reformas, acompanhadas de uma forte repressão às elites do país, e a grupos dissonantes, gerou um ambiente generalizado de revoltas e insurgência que culminaram com a invasão soviética.

Todo o imbróglio com a União Soviética se iniciou pelo medo que a superpotência tinha de que o Afeganistão se tornasse uma ameaça ao comunismo e funcionasse como um fator de desestabilização da Ásia Central.

No entanto sob a ótica saudita, a invasão soviética era um movimento parte de um projeto maior do que deixar que o Afeganistão deixasse de girar ao redor da orbita ideológica comunista. Para a família real saudita o interesse real dos soviéticos era expandir a influência do Império até o Golfo Pérsico, caminho que segundo essa concepção passaria obrigatoriamente por uma invasão ao Paquistão. O objetivo final da ação era controlar os grandes navios petrolíferos na região e consequentemente ter domínio sob a logística de grande parte do petróleo utilizado no mundo[5].

O Paquistão veio nesse contexto, a se tornar peça chave (assim como no embate no qual os Estados Unidos se engajaram a partir de 2001) no conflito que a União Soviética iria travar no Afeganistão até o ano de 1989.

O Paquistão fez parte da estratégia que o antigo assessor de segurança nacional dos Estados Unidos sob a presidência de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski logrou implementar para fortalecer a resistência afegã. Essa estratégia, inserida no contexto da Guerra Fria, buscava fazer com que a União Soviética enfrentasse desafios maiores do que poderiam ser previstos antes da invasão. A feitura de tal se baseou no envio de ajuda econômica e bélica aos combates da resistência afegã. Esse apoio chegou ao final da guerra à casa dos bilhões e foi ampliado pelo auxílio que a temerosa Arábia Saudita também enviou[6].

Todo esse apoio foi canalizado através do Afeganistão e em muitos casos através de redes de auxílio. Um dos responsáveis por angariar fundo no mundo Árabe e direcioná-los para os combatentes no Afeganistão foi Osama Bin Laden[7].

As cisões internas dentro do próprio Exército soviético contribuíram para a derrocada da invasão. A invasão do Afeganistão foi como um grande despertar para a população islâmica dentro da União Soviética. Conta Ahmed Rashin:

Milhares de jovens haviam sido recrutados para o Exército soviético e enviados para combater os mujahidins […] afegãos. Ao contrário das expectativas soviéticas, muitos jovens voltaram para a casa contando casos admiráveis de sacrifício e entusiasmo islâmico por parte de seus oponentes. Ainda que alguns de seus camaradas tivessem voltado em caixões revestidos de zinco, os sobreviventes falavam com orgulho radiante do sucesso e bravura dos guerreiros mujahidins contra o esmagador poder de fogo de suas próprias forças soviéticas[8].

Seguindo os parâmetros lançados por Samuel P. Huntington, o que se seguiu foi uma percepção de que os fatores culturais do islamismo eram mais aglutinadores para esses combatentes soviéticos do que a própria ideologia comunista que mantinha comunidades tão diversas, coesas[9].

Ainda mais, um sentimento de ressentimento contra o regime foi acentuado[10].

Foi a invasão do Afeganistão pela União Soviética no ano de 1979 um dos momentos cruciais para a doutrina que viria a culminar na tentativa de se ter um Jihad Global. O conflito que duraria dez anos foi a deixa que muitos jovens islâmicos encontraram para lutar pelo Islã ao verem seus irmãos muçulmanos afegãos sofrerem pelas mãos do poderoso Exército Vermelho. O conflito durou praticamente toda década de 80 e marcou muito do que veio a seguir no plano internacional.

Segundo aponta Bodansky[11] e também Bergen[12], a invasão das tropas soviéticas ao Afeganistão, marcou a primeira vez desde o final da Segunda Grande Guerra Mundial que uma nação muçulmana foi invadida por um país não islâmico.

A invasão soviética ao Afeganistão foi essencial para a formação de uma classe de combatentes que seria responsável direta pelo futuro do país e por eventos históricos que ecoam até o presente. Os afegãos que lutaram pela liberdade e resistiram à União Soviética, se autodenominaram mujahidins, ou em outras palavras, os guerreiros santos[13].

Os guerreiros santos do Jihad foram um obstáculo tremendo para o Exército soviético que não possuía treinamento para enfrentar os nativos no território que conheciam muito bem: o montanhoso terreno do Afeganistão.

Os mujahidins conseguiram tornar a resistência tão espinhosa que as tropas da União Soviética se retiraram a começar em 1988 e findar em 1989. Esse combate serviu de pano de fundo para a formação da Al Qaeda, e ainda mais gerou o ambiente que veio a culminar em 1992, três anos após a saída soviética, em uma nova derrocada do governo central do Afeganistão, desencadeando uma disputa entre os mujahidins, divididos em milícias que lutavam pelo poder.


[1] RASHID, Ahmed. A ascensão do islamismo militante na Ásia central. São Paulo; Cosac & Naify, 2003. p. 35.

[2] Id.

[3] WIKIPEDIA THE FREE ENCYCLOPEDIA. People’s Democratic Party of Afghanistan. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Democratic_Party_of_Afghanistan&gt;. Acesso em: 03 nov. 2011.

[4] WIKIPÉDIA A ENCICLOPÉDIA LIVRE. História do Afeganistão: República Democrática e invasão soviética. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Afeganist%C3%A3o&gt;. Acesso em: 03 nov. 2011.

[5] WRIGHT, Lawrence. O Vulto das Torres: A Al-Qaeda e o caminho até o 11/9. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 117.

[6] Ibid., p. 117-118.

[7] Id.

[8] RASHID, Ahmed. A ascensão do islamismo militante na Ásia central. p. 36.

[9] Id.

[10] Id.

[11] BODANSKY, Yossef. Bin Laden: O Homem que Declarou Guerra à América. São Paulo: Ediouro, 2001.

[12] BERGEN. Peter L. The Longest War: The Enduring Conflict Between America and Al-Qaeda. New York: Simon and Schuster, 2010.

[13] WRIGHT, Lawrence. O Vulto das Torres: A Al-Qaeda e o caminho até o 11/9. p. 60.

2 Respostas to “A INVASÃO SOVIÉTICA NO AFEGANISTÃO”

  1. MATHEUS GUIMARÃES 12 de julho de 2013 às 17:49 #

    EUA E AFEGANISTÃO. AMIGOS OU INIMIGOS?!

  2. Luiz França 23 de setembro de 2013 às 15:52 #

    Eu diria que nenhum nem outro. Apesar de ter resistido com bravura aos seus inimigos ao longo da história, o Afeganistão raríssimas vezes gozou autonomia política. A invasão norte americana serviu para aplacar o desejo de vingança que imperou na América pós 11/09. Em jogos de Relações Internacionais a amizade é um termo extremamente subjetivo. Continue comentando! Abraço!

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