A DIPLOMACIA BRASILEIRA E O SOFT POWER

1 ago

            Em uma entrevista concedida à rede britânica BBC, o então ministro brasileiro de relações exteriores, o chanceler Celso Amorim definiu o Soft Power da seguinte forma:

                     “É o uso da cultura e civilização, não de ameaças. É uma crença no dialogo, não na força.”

            O Brasil é uma das grandes nações emergentes neste início de século. Parte deste destaque é atribuída pelo próprio ministro à aplicação dos conceitos de Soft Power como norte da política externa.  Além disso, ele afirma que a conjuntura, o timing tem ajudado. Segundo ele:

                                   “Duas coisas acima de tudo tem contribuído para a emergência do Brasil como um expoente líder do Soft Power. Primeiro, o mundo mudou, e segundo o Brasil mudou.

            O britânico Timothy Power especialista em Estudos sobre o Brasil e responsável pelo Centro de Estudos sobre o Brasil na conceituada Universidade de Oxford no interior da Inglaterra, quando perguntado se a percepção de que o Brasil está emergindo no cenário internacional é um mito ou realidade, respondeu que não se trata de um mito. Em suas palavras:

                                   “Há provas de que a posição internacional do Brasil melhorou na última década. E acho que outros países começam a reconhecer isso.”

            No entanto ele afirma que tal posição assumida não é tão facilmente identificável. O que pode se entender é que de certa forma essa nova posição veio de forma branda, ou em outras palavras soft. Ele diz:

                                   “É muito difícil identificar uma conquista especifica do Brasil que prove isso. Acho que, na verdade, o Brasil tem atuado em frentes diferentes, com pequenas vitórias em muitas questões. Mas, cumulativamente, isso mostra que o Brasil está ganhando espaço.”

            Essas vitórias a que Timothy se refere, tem sido fruto desse Soft Power.

            Por exemplo. O Brasil recebeu recentemente a oportunidade e a responsabilidade de sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo, que serão realizados respectivamente em 2014 (Copa do Mundo de Futebol) e 2016 (Os Jogos Olímpicos). Muito tem sido dito sobre esse encargo. Mas o que isso representa em termos de avanço da política externa brasileira? Conforme aponta Timothy, são vitórias brasileiras que mostram que o Brasil ocupa uma posição inédita.

            Outro exemplo. Recentemente, em meio a toda polêmica envolvendo o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, o Brasil mediou juntamente com a Turquia (outro Estado representante do Soft Power), um acordo junto ao governo iraniano que visava uma maior abertura ao diálogo sobre o desenvolvimento do projeto, a fim de se evitar sanções internacionais que afetassem o país.

            Poder-se-ia ainda, argumentar que a viagem do ex-presidente Lula da Silva ao Oriente Médio em meados de 2010, com o intuito de mediar um acordo de paz entre israelenses e palestinos seja uma evidência desse Soft Power. No entanto as críticas dos analistas a esse evento deixam rastro para debate.

            Algumas premissas são extremamente válidas para se analisar o Soft Power brasileiro. Mas uma das mais importantes talvez seja a seguinte.

            Há de ser levantado que o Brasil não está envolvido em nenhum conflito armado contra Estado algum. Isso incluindo as diversas unidades sul americanas que fazem fronteira com o país. É quase um consenso que o Brasil é um dos países de melhor reputação na comunidade internacional.

            Timothy explica dessa forma:

                                   “(…) o Brasil deve ser o país menos odiado do mundo. É um país que recebe a confiança instintiva de vários atores diferentes que podem estar de lados opostos de questões bem problemáticas. Por exemplo, tanto os EUA quanto o Irã veem Brasília como um interlocutor importante. E isso não é pouco. Se você consegue a confiança de Teerã e Washington, é porque fez algo direito.”

            Toda essa ascensão levou o Brasil a se candidatar a voos mais altos. Não é segredo nenhum que uma das maiores metas da política externa do governo Lula é angariar aliados internacionais para uma causa que parecia utópica há alguns anos atrás: reformar uma entidade monolítica, adentrar um grupo quase impenetrável e assegurar ao Brasil um assento definitivo no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Embora tal objetivo esteja ainda longe de ser alcançado, é reconhecidamente mais factível hoje do que o era no passado. E isso se deve em grande parte à diplomacia do Soft Power nacional.

            No entanto, segundo Timothy Power, atingir ou não esse objetivo, não deve ser o peso com o qual o Soft Power brasileiro deva ser medido. Ele diz:

                                   “Eu acho que, quando as pessoas tomam um único fato como referência como, por exemplo, a conquista de um assento no Conselho de Segurança da ONU, é claro que isso desmentiria a tese, (de que o país está emergindo no cenário internacional), pois o Brasil tinha esse objetivo, ele não foi atingido, então não houve melhora. (…)     A maneira correta é verificar como o Soft Power do Brasil tem atingido um grande número de frentes diferentes. (…) Acho que, se você pegar várias pequenas vitórias e as somar, verá que há uma projeção internacional maior.”

            Uma dessas ‘pequenas’ vitórias foi o veredito da Organização Mundial do Comércio que assegurou ao Brasil, o direito de retaliar os Estados Unidos por estes estarem subsidiando a produção de algodão, prática considerada perniciosa.

            Além disso, o Brasil teve um papel preponderante no mais recente painel de discussões sobre o comércio internacional entre os países membros da OMC, a Rodada Doha.

            O Brasil é talvez o primeiro país a emergir como postulante à potência mundial sem possuir bombas nucleares. Ou seja, entre cenouras e galhos, não temos galhos, apenas cenouras. E estas parecem bastar.

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